Empreendedores unem esforços em cooperativas

Com tanta gente interessada em empreender, as cooperativas podem ser o caminho ideal para quem busca o sucesso nos negócios. Afinal, ao unir forças, os envolvidos conseguem vantagens como reduzir custos e ampliar o alcance das vendas. Segundo levantamentos da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), o número de cooperados no Brasil passou de cerca de 5 milhões para mais de 13 milhões entre 2001 e 2015, embora o número de cooperativas tenha diminuído. Para o presidente da entidade, Marcio Lopes de Freitas, cada vez mais pessoas têm demonstrado interesse por esta modalidade de negócio. E isso, para ele, tem a ver com um viés geracional.

— É uma mudança na cabeça da humanidade. As pessoas estão buscando uma economia muito mais colaborativa e participativa, diferente da geração anterior, que tinha uma postura de mercado, focada na formação de patrimônio individual. O interesse era acumular dinheiro para conquistar patrimônios como carros e imóveis. Agora, as pessoas querem novas relações de trabalho e renda — observa ele.

Freitas acrescenta que o descrédito nas instituições também faz com que as pessoas busquem maneiras mais autossuficientes de sobrevivência.

— Mesmo em países que têm presidentes legitimamente eleitos como a França, que via no recém-eleito Emmanuel Macron uma grande liderança, há uma desilusão com os governos e as instituições — ilustra ele.

Os 15 participantes da Cooperativa de Artesãos Mistura Carioca conhecem bem as possibilidades desse tipo união. Juntos desde 2008, eles conseguem pouco a pouco alçar voos cada vez mais altos com seus produtos. Graças à organização, podem manter uma sede no Leblon, onde fazem suas reuniões e discutem as melhores maneiras de tocar o negócio, e já se preparam para montar um local de exposição permanente dos produtos.

— Toda essa estrutura nos fez chegar até instituições que nos oferecem capacitações e treinamentos. Também ganhamos visibilidade suficiente para que participássemos de eventos onde expomos nossas criações para diferentes públicos — conta o presidente José Elias da Silva, que também mira no mercado internacional.

Até mesmo na hora de enfrentar dificuldades o modelo se mostra interessante. É o que defende o diretor financeiro da Unimed-Rio, William Galvão. Para ele, a base cooperativista foi fundamental para que a companhia conseguisse dar os primeiros sinais de recuperação de sua mais recente crise.

— São 4.800 médicos cooperados que não trabalham apenas para ganhar seu salário, mas para que a empresa possa crescer e prosperar. Até os funcionários se sentem inseridos desta maneira, devido ao cooperativista — define ele.

GESTÃO DEMOCRÁTICA

Entusiasta do modelo, Galvão acredita que o viés democrático é um dos pontos altos. No auge da crise, por exemplo, os integrantes elegeram uma nova diretoria, que trouxe várias inovações para o dia a dia do negócio. Uma delas foi a criação de um portal de transparência, pelo qual todos os membros acompanham a evolução dos números da operadora de saúde.

— Temos um quadro societário amadurecido em que cada um entende a sua importância para o sucesso dos negócios. Por isso, promovemos ações para que possam se envolver ainda mais com a companhia — descreve ele.

Embora o público em geral frequentemente associe a ideia de cooperativa a setores como agronegócio ou empresas do ramo financeiro, não há limites neste aspecto. Uma prova disso é a micro-usina de energia solar da Cooperativa Brasileira de Energia Renovável (Coober), que começou a operar há cerca de um ano em Paragominas, no Pará. Constituída por 23 integrantes, a estrutura tem 288 placas fotovoltaicas com capacidade de produção média de 11.550 kWh por mês. A carga é injetada na rede de distribuição de energia, sendo o valor proporcional descontado nas respectivas contas dos cooperados.

— Gastava mais de R$ 700 por mês e agora pago menos de R$ 200 — conta o advogado ambientalista Raphael Sampaio Vale, presidente da Coober.

— Mas se a energia continuar aumentando, isso ocorrerá em ainda menos tempo — pondera Vale.

Feliz com a iniciativa, ele afirma que há outros 20 projetos semelhantes em andamento pelo Brasil e muita gente querendo participar do negócio deles. Tanto que já estudam a ampliação, elevando a categoria da usina de micro para mini.

— Isso tem muito potencial. Para se ter uma ideia, na Europa já são mais de três mil cooperativas de energia — compara.

NO RADAR DOS JOVENS

Se os jovens estão entre os mais interessados em empreender, o cooperativismo já entrou no radar deles, como observa a professora de Estratégia e Inovação do Ibmec/RJ, Ana Beatriz Moraes. Segundo ela, muitos alunos têm demonstrado interesse pelo tema em sala de aula.

— Eles estão começando a se conscientizar de que nem todo mundo tem capital para abrir um negócio sozinho — diz ela. — Enquanto isso, modelos alternativos proporcionam uma reunião de produtores, criando uma estrutura formal para cuidar de aspectos como finanças, comunicação e logística de maneira menos onerosa.

Mas Ana Beatriz chama atenção para um detalhe importante: muita gente ainda faz confusão entre cooperativa e co-working, por exemplo. E conhecer bem as diferenças é fundamental para começar a planejar um empreendimento desses.

— A cooperativa não é só um aglomerado de pessoas que se juntam sem cuidado profissional. É preciso assegurar a legalização e todos os integrantes têm responsabilidade sobre o negócio. Além disso, é preciso muita atenção para fugir da atmosfera de informalidade. Só assim será possível conquistar credibilidade junto ao público — descreve ela.

Para a professora, o modelo de coworking costuma funcionar melhor para trabalhos que dependem muito do pensamento individual, como fotografia e design. Já quando há produção envolvida, como moda, a cooperativa pode ser mais interessante.

Coordenador do MBA em empreendedorismo da Fundação Getulio Vargas, Marcus Quintella também lembra que, para abrir um negócio neste modelo é preciso respeitar algumas regras preestabelecidas, como ter, pelo menos, 20 integrantes, definir políticas de admissão e demissão e assegurar que nenhum participante tenha mais de um terço do capital social.

— O foco inicial tem que ser nos associados. É diferente de uma empresa convencional, na qual a maior preocupação é o mercado — frisa ele.

Dito isso, Quintella vê nesta modalidade uma das maiores expressões de desenvolvimento social e econômico atuais devido à natureza coparticipava.

Perder o foco nestes aspectos, por sua vez, é o maior risco para a iniciativa.

— A partir do momento que um cooperado começa a querer ser maior que outro, o negócio está fadado ao insucesso. É uma questão de “unidos venceremos”. Muitas cooperativas não dão certo e quebram por questões políticas internas — finaliza ele.

Fonte: Eduardo Vanini/O Globo

 

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