Comitê de Gênero e suas ações integradas no cooperativismo

Seguindo as orientações do movimento de multiculturalismo crítico do Mestre Pedagogo Peter McLaren, em seu livro Pedagogia Revolucionária, percebe-se um esforço de valorizar os gêneros masculino e feminino utilizando o @ em palavras que fazem referência a ambos os gêneros. Esta forma de linguagem escrita é usada nos documentos que estudam e defendem uma perspectiva de gênero.

Desde 1992 no ramo educacional e uma das fundadoras do Comitê de Gênero Dona Terezita do Sistema OCB/Sescoop-RJ, Adelina Salles conta a mediação entre tod@s participantes dos eventos e estudos de gênero que já foram realizados e apoiados pela instituição. O histórico é repleto de momentos que fazem ecos positivos ao cooperativismo.

“A experiência diária no cooperativismo revela-nos a necessidade da educação dos princípios cooperativistas, pois é desafiador vivenciar a ajuda mútua com honestidade, transparência, responsabilidade social e preocupação com o semelhante em uma gestão democrática. Mas todos estes pontos parecem estar distanciados do processo cultural em que fomos educados”, conta Adelina.

O trabalho com as questões de gênero faz parte da política internacional do cooperativismo desde a década de 1980. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) orienta os países a aumentarem a participação das mulheres na gestão das cooperativas e a Aliança Cooperativista Internacional (ACI) assume o trabalho em um comitê por continente, iniciando na ACI Américas e Organização das Cooperativas do Brasil (OCB) em 1995. “O tema foi considerado com a atenção necessária e a entidade tem feito questão de destacar que o cooperativismo é uma associação de pessoas que não discrimina gênero, classe social, raça, política ou religião”, descreve a dirigente.

Em 1997 foi o ano em que a ACI elegeu seu primeiro presidente não europeu, o brasileiro cooperativista e ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, já tendo presidido também a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB). Ele estabeleceu normas para alcançar a equidade de gênero na entidade. “Entre suas prioridades, incentivou a participação das mulheres e jovens nas cooperativas como uma política de garantia para o futuro do sistema. A principal orientação refere-se às formas participativas de gestão de grupos e, assim, indicam a formação de comitês gestores”, diz.

Roberto Rodrigues, a partir deste movimento internacional, implementou o trabalho de igualdade de gênero em seus planos de ação, criando em 1997 o primeiro Comitê de Gênero e Desenvolvimento Integrado em Cooperativismo (Gedeic), vinculado ao movimento de igualdade de gênero da ACI, atuando até 2000. Sua presidente foi a professora de cooperativismo da USP, Diva Benevides Pinho. Deste comitê merecem destaque três cooperativistas na diretoria executiva: Mariléa da Conceição de Souza Barroso, Silvia Regina de Almeida e Vera Oliveira, visando ao desenvolvimento de Políticas Públicas de Gênero.

Em 2000, a ACI definiu um plano estratégico para a promoção da igualdade de gênero, sobretudo nas instâncias decisórias, recomendando avaliação de recursos orçamentários para incentivar o alcance deste objetivo, indicações no nível legislativo para ampliar a participação das mulheres e incentivos para atingir uma participação paritária nos encontros regionais e globais. Os registros da instituição mostraram um aumento de 25% de membras eleitas no Conselho de Administração da ACI. Estas eleitas desenvolveram um trabalho junto com Pauline Green, na época vice-presidente da região europeia. Em 2009, foi eleita presidente da ACI e reeleita para a gestão 2012/2016. Pauline Green foi a primeira mulher na história da ACI a chegar ao cargo de presidente da entidade.

A gestão 2008-2011 do Sistema OCB/Sescoop-RJ criou a diretoria de Gênero, dando início aos trabalhos no 1º Encontro de Gênero da OBC/RJ: Emancipação da Mulher através das Políticas Sociais de Gênero. Este evento foi pensado para dar voz ao trabalho sobre cooperativismo e gênero no estado, iniciado a partir do seminário Mulheres Cooperativista em Ação – Mudando a Pele do Mundo – A hora é essa e seus desdobramentos em 2007.

“Venho estudando e participando de diversos fóruns estaduais promovidos pelo Sistema OCB/Sescoop-RJ, além de outros espaços de reflexão sobre o ramo Trabalho. Observo no cooperativismo, por todos os problemas que enfrenta, a percepção do paradoxo entre a proposta de cooperação em uma sociedade competitiva e as dificuldades culturais para a prática dos valores do cooperativismo, sobretudo a igualdade”, afirma Adelina.

Assim, a contribuição do movimento cooperativista em uma perspectiva de gênero pode ser relevante em nossa sociedade. É preciso encontrar os pontos de transformação e as condições que favorecem este processo de mudança.

Talvez esta seja a questão mais delicada: as mudanças.
O tema é tão antigo que mobilizou até Luís de Camões, que em um de seus Sonetos escreveu: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Muda o ser, muda-se a confiança: Todo mundo é composto de mudança…”

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