Cooperativismo é a nova fronteira de desenvolvimento no setor financeiro

Livro-Rumos-do-Cooperativismo-Financeiro-no-Brasil-IIFoi lançado no Brasil o livro “Os Rumos do Cooperativismo Financeiro no Brasil”, que retrata o desenvolvimento das cooperativas de crédito nas últimas décadas. Escrito com base na experiência dos autores Abelardo Duarte de Melo Sobrinho e Marden Marques Soares, o material também se apoia em dados disponibilizados pelo Banco Central sobre os principais movimentos do setor nos últimos cinco anos e suas consequências. Além disso, o livro também traz análises estruturais e regionais que convergem para o diagnóstico, as perspectivas e os desafios para o setor. A obra completa ela está disponível na livraria virtual do site da Confebrás: www.confebras.coop.bor .

Confira a entrevista com os autores.

O que os motivou a escrever um livro sobre cooperativismo de crédito?

Autores – A motivação veio quando ainda no Banco Central, começamos a pesquisar o cooperativismo brasileiro e encontramos dificuldades em recuperar sua história em determinadas épocas. As fontes eram escassas. Este último livro é, na verdade a continuação de uma série de publicações assinadas pelos autores e outros parceiros que começaram a ser divulgadas na década de 1990, quando estávamos engajados no projeto de apoio ao cooperativismo financeiro e outras iniciativas voltadas para o crescimento do acesso da população a serviços financeiros. Clicando aqui é possível encontrar o último livro de nossa lavra, publicado pelo BCB.

Vale ressaltar que os últimos 15 anos trouxeram grandes avanços ao cooperativismo financeiro a partir do momento em que Conselho Monetário Nacional e o Banco Central passaram a entender a importância do setor e promoveram mudanças significativas em sua regulação. Registrar essa fase com uma visão de futuro foi um dos objetivos do livro.

Qual o objetivo da publicação?

Autores – Além do registro histórico desse momento, como já dissemos, o livro traz também uma radiografia completa do cooperativismo financeiro nos últimos cinco anos, com apresentação de aspectos quantitativos e qualitativos que buscam estimular o setor na busca de maior eficiência. De maneira geral, o mercado editorial voltado para o cooperativismo é bastante rico em questões conceituais, como governança e princípios.

Cremos que, ao divulgar estudos numéricos e estatísticos, com base em dados reais e confiáveis, preenchemos uma lacuna que, historicamente, somente ocorria, individualmente, em cada um dos sistemas organizados, num universo de quatro Confederações e 37 Centrais.

Sem contar as cerca de 200 independentes. Juntar tudo isto exigiu grande esforço de pesquisa somente levada a efeito por conta do Convênio que o BCB firmou com a OCB para disponibilização de base de informações mais completa do que as existentes em seu sítio. Claro que a página eletrônica do BCB está cada vez mais rica em informações sobre o cooperativismo e, portanto, foi também importante fonte de pesquisa. Tudo isto demonstra a importância que aquela autarquia tem dado ao setor.

Como esperam que o livro contribua com o desenvolvimento das cooperativas brasileiras de crédito?

Autores – O primeiro passo para um bom planejamento é o diagnóstico. Saber onde se está para planejar aonde se quer chegar. Nesse ponto, o livro está repleto de informações que, entendemos, promoverão intensas reflexões a partir de sua leitura. Mais ainda porque, além do diagnóstico geral, fizemos também estudos do cooperativismo financeiro em cada uma das regiões brasileiras. Como tem caráter global e estratégico, é importante ferramenta para a tomada de decisão, principalmente quanto a escolhas para prospecção e reestruturação.

Apenas a título de exemplo destacamos três importantes diagnósticos que, sem dúvida, trarão boas reflexões: a) o direcionamento de recursos para crédito que, se de um lado, comprova o conservadorismo do setor, de outro, demonstra a existência de boa margem para saudável expansão das operações creditícias, mesmo considerando que, em relação às fontes livres (captações mais capital de giro), o cooperativismo já direciona para crédito mais do que o sistema financeiro tradicional, o que denota o potencial do segmento; b) a prevalência do processo preventivo, em detrimento do reativo, no tocante às incorporações, comprovada pelo fato de que, entre 2000 e 2009 (10 anos), apenas 23% das cooperativas que saíram do mercado o fizeram por incorporações, contra 60% entre 2010 e 2014; e c) a ainda alta dependência de capital para formação do patrimônio líquido do setor, de 73% contra apenas 27% das reservas.

O capital é propriedade particular e a própria lei estabelece algumas condições de saque, enquanto que as reservas são indivisíveis (pertencem a todos). Portanto, há de se buscar no médio e longo prazo formas de mitigar essa dependência.

Os dados e análises constantes do livro são muito relevantes, mas o que vocês destacariam como principal?

Autores – Outro dado de especial relevância foi o crescimento do cooperativismo financeiro na Região Norte, notadamente em Rondônia. Creio que, aqui, vale comentar que no ano de 2000 o cooperativismo financeiro naquele Estado respondia por apenas 1% do Sistema Financeiro local.

Na mesma época o Censo IBGE acusava uma taxa de analfabetismo de 19,3%. Uma década depois o cooperativismo financeiro de Rondônia atingiu os dois dígitos e o Censo/2010 revelava taxa de analfabetismo de 8,7%. Pode-se até apontar outros fatores para essa evolução, porém não temos dúvida da contribuição significativa do cooperativismo financeiro.

Com base na realidade do setor e considerando a crise econômica do país, quais as perspectivas para as cooperativas de crédito?

Autores – Historicamente, o cooperativismo cresce nas crises. Foi assim em 2008, quando o mundo enfrentou uma das mais graves crises dos últimos tempos, por conta da especulação hipotecária nos Estados Unidos. Isto acontece, em geral, porque o cooperativismo não se mete em riscos regidos apenas pelos interesses dos especuladores.

Veja que o Banco Central, dentro de sua missão de zelar pela solidez e eficiência do Sistema Financeiro Nacional, passou a classificar as cooperativas pelos riscos de seus ativos e apenas onze delas obtiveram a categoria Plena. E ainda assim, podem ter certeza, sem assunção de riscos essencialmente especulativos.

O atual cenário econômico brasileiro é desanimador, com taxas de juros elevadas e clima de recessão. Entretanto, o cooperativismo financeiro está bastante fortalecido, com boa liquidez, maior credibilidade, principalmente a partir da criação de seu próprio Fundo Garantidor, o FGCoop, e investimentos na profissionalização de seus dirigentes, para o que muito tem contribuído o Sescoop.

Além, claro, de melhor estrutura de governança a partir da segregação de funções estratégicas e executivas para as cooperativas de maior porte. Lembramos uma frase bastante conhecida no mercado: nas crises quem dispõe de boa liquidez melhor aproveita as oportunidades, diante do poder de negociação. Portanto, a alta liquidez do cooperativismo, associada aos seus princípios e à solidez de seus ativos, fará dessa crise excelente oportunidade de crescimento e, mais do que isto, analgésico para o sofrimento de tantos associados.

O cooperativismo desponta, assim, como a nova fronteira de desenvolvimento no setor financeiro. Nosso livro oferece vários insumos que permitem chegar a essa conclusão.

Fonte: Brasil Cooperativo

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