450 anos influenciados pelo cooperativismo

Rio-de-janeiro-RC-WEBNo dia 10 de março o Rio de Janeiro completou 450 anos e a Cidade Maravilhosa, que já foi capital do Império, se consolidou como um dos locais mais visitados do mundo.

Destacando-se como um dos municípios brasileiros com grande vocação para o cooperativismo – cuja tendência já podia ser observada desde os tempos dos jesuítas –, a primeira cooperativa do Rio foi a Militar de Consumo, que teve a sua criação autorizada em 2 de outubro de 1890 por meio de decreto assinado pelo chefe do Governo Provisório, Marechal Manoel Deodoro da Fonseca.

Esta iniciativa de 125 anos partiu de um grupo de oficiais do Exército com interesse no provimento de mantimentos e uniformes pelo menor preço. No caso de civis, a aquisição era feita mediante apresentação de uma senha fornecida pela cooperativa. A sociedade anônima, como conhecida à época, também praticava a modalidade de empréstimos a juros baixos. A divisão dos ganhos se baseava no modelo Rochdale: os sócios compradores tinham direito a 25% dos lucros, dividido em razão das compras e os empregados dispunham de 8%.

Um recente levantamento feito pela Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) revela que no Estado do Rio de Janeiro mais de 230 mil pessoas estão vinculadas a uma cooperativa de um dos 13 ramos. De acordo com o pesquisador e sociólogo Julio Aurélio Vianna Lopes, os ramos Consumo, Transporte e Trabalho destacam-se na capital impulsionados em um momento de alta da taxa do desemprego, ocorrido há mais de 10 anos.

“Devido ao problema de geração de emprego vivenciado tempos atrás, houve um crescimento das cooperativas de táxi e vans. Este tem se mostrado um braço forte do cooperativismo carioca, posicionando-se como alternativa viável para o problema do transporte público”, explica Julio Vianna, pós-doutor em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco e doutor em Ciências Políticas pelo Instituto de Pesquisas do Rio de Janeiro.

Para a diretora administrativa do Sicoob Central Rio, Mary Virgínia Northrup, que vivenciou vários momentos de mudanças no setor, uma ótima forma de promover o cooperativismo seria o Estado oferecer aulas voltadas para o tema desde a educação de base, como acontece em algumas escolas do Sul do Brasil. “É preciso pensar em educar a criança para a cooperação. Seria interessante se o governo incrementasse mais o cooperativismo, tornando os jovens mais conscientes desde cedo”, sugere.

Mary Virginia destaca, ainda, a importância dos ideais cooperativistas para a formação de uma sociedade melhor. “O cooperativismo é um instrumento de progressão da pessoa, que é acessível a todas as camadas da população e funciona em um sistema em que todos trabalham pelo coletivo de uma maneira que não é voraz, com as sobras retornando e beneficiando os associados”, completa a diretora.

Outra forma de utilizar o cooperativismo como ferramenta de desenvolvimento da sociedade seria criando cooperativas de resgate da agricultura urbana – que estimulam a produção de alimentos orgânicos aproveitando áreas ociosas em regiões metropolitanas. Apesar do incentivo a este método agricultor constar no Plano Diretor do município, não está claro se há fomento por meio do cooperativismo que, segundo o pesquisador Julio Vianna, seria essencial. “O Plano Diretor é a lei que define o futuro de uma cidade, mas é preciso ter em mente que não há desenvolvimento sem unir as cooperativas com a política”, ressalta Julio Vianna, também pesquisador em Ciências Sociais e Humanas na Fundação Casa de Rui Barbosa.

Impulso olímpico
No último ano, o Rio de Janeiro recebeu um milhão de visitantes para a Copa do Mundo de Futebol, interessados em assistir aos jogos realizados na cidade. O evento movimentou vários setores da economia devido ao turismo inflado e diversos ramos cooperativistas foram beneficiados. Com a proximidade dos Jogos Olímpicos Rio 2016, nasce uma oportunidade ainda maior para o desenvolvimento de cooperativas.

Em comunidades carentes, por exemplo, mulheres e chefes de família se unem com o objetivo de aumentar a renda. Para o cientista político Julio Vianna há uma tendência das pessoas se integrarem a grandes eventos. “Cooperativas voltadas para o turismo e artesanato têm feito esse papel e acredito que, com apoio, não há nada que possa impedir seu crescimento”, conclui.

Como tudo começou
A primeira cooperativa brasileira foi a Sociedade Cooperativa Econômica dos Funcionários Públicos de Ouro Preto, em 1889, em Minas Gerais. Em pouco tempo, a união se espalhou pelo Brasil, reforçando valores como a solidariedade, o compromisso social e a participação democrática.

O modelo Rochdale de cooperativismo, nascido na Inglaterra em 1844, foi aplicado em um movimento mundial que também chegou ao Rio. Dos 450 anos da cidade, a lição é que muito já foi conquistado, porém, há bastante a evoluir. Em seus bravos 125 anos, o cooperativismo carioca pode ser considerado em fase de crescimento e aprendizado contínuo.

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