Para não se olvidar que tudo é uma questão de valor, cooperativo!

Bases_450 x 450 px_MarcasJosé Eduardo de Miranda é Pós-Doutor em Direito; presidente da Delegacia Brasileira da Associação Internacional de Direito Cooperativo (AIDC); membro do Grupo Internacional de Pesquisa da Asociación Internacional de Derecho Cooperativo e do Instituto de Estudios Cooperativos da Universidad de Deusto, em Bilbao, na Espanha.

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No âmbito do pensamento cooperacionista, a busca pelos meios de produção, gestão e gozo dos bens produzidos, as ideias de liberdade e as diferentes formas de Cooperação sempre foram associadas e articuladas em conjunto com certos princípios fundamentais, baseados na oportunidade do pleno desenvolvimento do homem, do alcance de uma sociedade igualitária e fraterna, e do encontro da ética como forma de sustentar a socialização.

De uma maneira específica, todas as articulações cooperacionistas que surgiram ao longo do desenvolvimento da civilização humana demonstram que os respectivos ambientes se estruturaram sobre um sentimento comum de formação de juízos consubstanciados no sentido ético dos valores universais.

Sabe-se, com certeza inconteste, que esta preocupação foi soerguida por Tomás Moro, Tomás Campanela, Francis Bacon y Ettienne Cabet, e se mostrou própria do conceito de cooperação dos precursores que lhes antecederam.

Mesmo que o conceito geral de Cooperação se mostre como um princípio de atitude-postura constante na história do Homem, as ações cooperativas devem ser examinadas como um caminho paradoxal que obriga uma vigilância permanente sobre o processo, para evitarem-se tanto os individualismos com seus efeitos de distanciamento do histórico e do social, como a indiferença frente ao coletivo, e, assim mesmo, “evitarem-se os desvios holistas tendentes ao irracionalismo fatalista e a submersão cega de preconceitos e autoridades”¹.

Esta precaução, por certo, deve conferir prevalência à ação cooperativa como meio de supressão concorrência e produtividade desajustadas, que, de uma ou de outra maneira, justificam, legitimam e intensificam as desigualdades sociais.

Neste sentido, capital assinar que não se pretende ressuscitar os socialistas utópicos e tão pouco instaurar uma reforma imediata dentro da ordem socioeconômica, de modo que a transição para a igualdade surja de forma automática, contrariando as leis da concorrência leal e eliminando-se o acúmulo de capital e o trabalho.

Sobre isto, pode-se constatar que a falta de equilíbrio e de divisão entre os agentes que participam dos processos produtivos garante a imunidade dos detentores do poder, uma vez que é o mercado quem disciplina e regula a economia; os agentes econômicos se tornam dependentes do mercado, e até mesmo os trabalhadores que detêm os meios de produção, “individual ou coletivamente, são obrigados a responder aos imperativos do mercado: concorrer e acumular capital, abandonar as empresas não competitivas e seus trabalhadores, e, inclusive, explorar a si próprio”².

É por isto que se faz necessário o resgate do horizonte histórico que estampou possibilidades concretas de construção de uma sociedade justa e igualitária, baseada em princípios de transformação do próprio Homem. Para tanto, necessário a construção de um espaço moral comum, hábil ao consenso do tipo de sociedade que os Homens esperam…

Os indivíduos devem compreender a importância de colocar-se em prática “virtudes políticas como a tolerância, o respeito mútuo, a reciprocidade, a ideia de equidade e civilidade. O ensino razoável deve fortalecer as formas de pensar e sentir que amparam a cooperação social equitativa entre os homens que devem se considerar livres e iguais”³.

A reflexão sobre estas virtudes políticas é indispensável à educação e à formação das futuras gerações dentro do verdadeiro ESPÍRITO DA COOPERAÇÃO, um espírito de fraternidade, de igualdade, de solidariedade e de justiça.

É justo nesta direção que se encaminha a conduta imprescindível para o aprendizado que tenha como meta fundamental do Homem a construção de uma sociedade baseada em princípios éticos sustentados por uma visão universalista de valores humanos e jamais por uma responsabilidade moral individualista e neopragmática.

Por isto, ao considerar que a Sociedade Cooperativa está consagrada como fórmula que confere aos menos agraciados uma alternativa para a conjugação de todas as vantagens da vida privada, se pode dizer que as próprias Cooperativas, e por suposto, o Cooperativismo, são o porta-estandarte de valores inerentes a levante de atitudes éticas e humanitárias.

Desta forma, salta evidente que os valores cooperativos se deduzem de uma Cooperação do Homem e da sociedade, ou seja, de uma concepção antropológica do Homem e de suas relações sociais. É sob esta ótica que o verdadeiro motivo do Cooperativismo se conforma dentro da vertente que se dedica à reconstrução social, como modo intencionado de transformação da sociedade, a partir do interior da própria sociedade, a partir do interior do Homem e de suas relações imediatas.

É assim que ao colocar em prática os valores cooperativos, os cooperacionistas dão primazia substrato axiológico e principilogico da Cooperação, permitindo que o Cooperativismo alcance o seu objetivo maior e logre disseminar no seio comunitário toda a perspectiva de instituição de um sistema de existência coletiva que ofereça as mesmas oportunidades de transformação e desenvolvimento para todos, sem exceção. Não há, pois, de olvidar-se que os valores cooperativos consagram no universo da cooperatividade que, para o Cooperativismo, o Homem é o início e o fim de tudo!!!

(1) LOVISOLO, H. Educação popular: maioridade e conciliação. Salvador: UFBA – Empresa Gráfica da Bahia, 1990. p. 259.
(2) WOOD, E. M. As origens agrárias do capitalismo. Crítica Marxista. São Paulo: Bomtempo Editorial, 2000. p. 29.
(3) SILVA, S. R. Formação moral em Rawls. Campinas: Editora Alínea, 2003. p. 125.

 

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