As cooperativas, as inovações e a participação social

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Ir aos textos históricos não é meramente visitar páginas do passado. Buscar a memória do que aconteceu é, na verdade, refazer o passado com as ideias do presente.

As memórias são elementos ricos para o entendimento do presente. Os primeiros momentos do cooperativismo são tão importantes que nos colocam frente a frente com as soluções dos problemas de hoje.

A descrição simplista dos atos que levaram à consolidação do cooperativismo parece nos remeter à ideia de que os pioneiros do movimento, aproveitando-se da oportunidade de um cenário favorável, recolheram-se aos espaços do Armazém de Toad Lane, ignorando o conjunto de problemas enfrentados por aquela sociedade. Mas não foi assim!

Os “nossos heróis”, antes da formação da cooperativa pioneira, já estavam presentes nas discussões dos temas de interesse dos trabalhadores daquela época. Na conjuntura em que surgiu a primeira cooperativa, o grande impasse era saber se os tecelões entrariam ou não em greve pelo aumento dos salários.

De forma mais abrangente, a dúvida que permeava os tecelões e os operários da época resume-se à seguinte questão: o que fazer para melhorar as condições de vida do povo?

Reportamo-nos ao fato de que os membros da cooperativa, bem como outros líderes dos trabalhadores, notaram que as relações entre salário e preço resultavam em um quadro desfavorável para os trabalhadores, assinalando que algumas coisas haviam de ser feitas: a necessidade de lutar tanto pelo aumento dos salários quanto pelo controle dos preços. Entendiam que as mercadorias produzidas precisavam de um valor que garantisse um retorno adequado. Nascia, então, a discussão do Preço Justo. Os Pioneiros de Rochdale inseriram-se nesta luta e chegaram à conclusão de que, para que o empreendimento fosse vitorioso, precisavam agir, acompanhar e influenciar para além dos muros da cooperativa.

Hoje, as exigências para o sucesso são as mesmas. Nos últimos 30 anos vivenciamos grandes mudanças na economia. Estimulados pela derrocada do projeto de socialismo real do Leste Europeu, o mundo capitalista experimentou um exagerado modelo de desregulamentação do capital. As palavras de ordem passaram a ser a abertura de capital, o câmbio flutuante, o abandono de políticas intervencionistas etc.

Este cenário gerou as bases para o surgimento da crise econômica instaurada em 2008 e que continua até os dias atuais, mergulhando o mundo na obrigação de repensar alternativas sociais e econômicas. A lição ainda está para ser aprendida. São inadmissíveis cirandas financeiras que resultam em irresponsabilidade econômica. Nos Estados Unidos um grande movimento dos indignados correntistas de instituições financeiras sugeriram que todos retirassem seu dinheiro dos bancos e depositassem nas cooperativas de crédito. De forma imediata, podíamos traduzir o comportamento como se as pessoas reconhecessem que as cooperativas de crédito estariam mais seguras do que os bancos.

A leitura mais adequada seria entender que a sociedade parece estar mais disposta a reprovar a excessiva desregulamentação neoliberal e a irresponsabilidade com as consequências sociais.

A análise da conjuntura é fundamental para evitar traumas e realizar planos. A partir dela identificamos riscos e oportunidades em que o momento político-econômico está a oferecer. Será que esta análise está sendo realizada por nossas cooperativas ou agem de forma conservadora e sem um papel a cumprir na socidade?

O signo que norteou e deu aos Pioneiros de Rochdale a obrigação de defenderem a bandeira do Preço Justo, não se limitando a gestão de seu armazém cooperativo, precisa ser instaurado no mundo do cooperativismo atual, como um verdadeiro passaporte para a solução dos problemas contemporâneos.

A globalização, alinhada ao surgimento de novas tecnologias, fez o mundo mais rápido e menor, obrigando a respostas mais eficientes e tornando necessária a atualização constante sob pena de perder oportunidades.

O cooperativismo é um movimento proativo que deve chamar para si o protagonismo diante das questões da sociedade, de onde advém o sétimo princípio: o interesse pela comunidade.

Com o agravamento da crise urbana, é necessária a união de esforços para uma nova configuração das cidades. Os transportes demonstram ser um dos setores mais necessitados de reestruturação. É de notar-se que, para acomodar mais facilmente o cidadão nas metrópoles, o transporte coletivo é cada vez mais incentivado, permitindo a adesão de novos públicos que se movimentavam individualmente. A humanização natural transpassará o modelo de transportes do novo século, sugerindo um modelo próximo ao transporte cooperativo a ensejar o conforto do transporte individual, permitindo trajetos curtos, dentro da perspectiva de uma saudável relação entre o usuário e o tomador. Disso resulta o entendimento segundo o qual as cooperativas de transporte são a solução para este futuro.

A escola moderna tem mostrado suas pedagogias em crise. O questionamento e a releitura dos conceitos de autoridade, igualdade, gênero, direitos humanos e o surgimento das redes sociais têm colocado a escola de hoje na busca de novos paradigmas. Além do modelo de autoridade do professor em sua relação com o aluno, o conteúdo de interesse do estudante conflita com o que é exigido pela rede de ensino. Conteúdos programáticos conservadores têm entrado em xeque com o “saber rápido” da internet.

Neste ponto, as cooperativas educacionais representam o novo à medida que trazem em sua constituição a questão democrática já resolvida, uma vez que são formadas por professores engajados com a realidade da comunidade.

A saudável cumplicidade com os interesses da comunidade coloca o cooperativismo como agente por excelência na tarefa de reconquistar a plena saúde do planeta. A formação de cooperativas de catadores e outros empreendimentos voltados ao ambientalismo são ações relevantes porque são atitudes pedagógicas que reforçam as boas maneiras com o planeta.

No campo habitacional, as cooperativas têm se mostrado como alternativas, na busca de soluções para a falta de moradias. Nossas cooperativas estão aptas a executar os programas sociais oferecidos pelo Poder Público. É fundamental que as cooperativas habitacionais integrem os movimentos por moradia para que os seus associados vejam o empreendimento como de todos, ao invés de entenderem como uma aventura de investimento.

No atual mundo produtivo, o cooperativo mostra-se como o perfil mais adequado e consonante com um mundo que se decepcionou ao assistir a utilização de demandas sociais vitais como cenário de enriquecimento econômico e financeiro dos grandes grupos.

Afinal, o cooperativismo é um movimento e assim pulsa na organização e na participação.

Por: Adelson Novaes. Especialista em cooperativismo, formado em Psicologia pela UERJ e pós-graduado pela FGV em Psicopedagogia. Ex-diretor executivo do DIEESE-RJ, ex-secretário do Sindicato dos Portuários do RJ, foi subsecretário de Educação de Nova Iguaçu/RJ.

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