O gigante acordou. E com fome…

Bases_450 x 450 px_ClaudioPor Cláudio Montenegro, editor-executivo da Rio Cooperativo*

“Uma cooperativa pode mudar a vida de muita gente, resolver problemas das comunidades ou até de uma cidade, mas para dar certo todos têm que cooperar, ajudar, ser unidos e lutar pelos mesmos sonhos.”
(Alice Veríssimo Martins, trecho de redação da então aluna do 4º ano da Escola Rural Municipal Deputado João Leopoldo Jacomel, da cidade de Lapa (PR) em 2003)

Em 1985, os brasileiros clamavam em uníssono pelas primeiras eleições diretas para a Presidência da República após 20 anos de governo militar. O Movimento Diretas Já organizou o histórico comício da Candelária, quando, segundo estimativa dos organizadores, 1 milhão de pessoas ocuparam pacificamente grande parte da avenida Presidente Vargas e interagiram com ícones da classe artística, da política brasileira e da sociedade civil pela aprovação da Emenda Dante de Oliveira.

Na época, era apenas um jovem estudante de Comunicação Social/Jornalismo da UFRJ, da saudosa Eco, na Praia Vermelha. Eu e meus colegas, futuros jornalistas, vestimos o verde-amarelo e nos juntamos àquela multidão esperançosa e ávida pela mudança nos rumos políticos do Brasil, embalada por Coração de Estudante, de Milton Nascimento e Wagner Tiso.

A emenda não passou, Tancredo Neves foi “escolhido” presidente num dia, morreu no dia seguinte e José Sarney foi empossado logo em seguida. A frustração não poderia ter sido maior. Em 1992, a onda cívica lavou o Brasil novamente, com os “caras-pintadas” nas ruas promovendo o impeachment de Fernando Collor, colocando o dedo numa das feridas mais vergonhosas do país. O orgulho de ser brasileiro se mostrou forte, pois a voz do povo foi ouvida, mesmo ressoando uma vontade que teve início no próprio Congresso Nacional e reverberou na sociedade, que teve como principais representantes os jovens estudantes daquele momento.

Saltamos 21 anos, tempo em que o gigante permaneceu deitado, não em berço esplêndido, mas em um sono letárgico, um coma profundo em que foi se alimentando de falsas esperanças e indignação. E em meio aos mensalões, propinodutos, PEC 37, Marcos Feliciano e suas curas milagrosas para os gays, crise na saúde pública, segurança, transportes e educação, eis que R$ 0,20 se tornaram o estopim para a onda avassaladora que tomou conta do país no mês de junho, com o Movimento Passe Livre.

O gigante acordou e com fome. Fome de moralidade, de cidadania, de vergonha na cara. Fome de punição para os corruptos, para a bandalheira generalizada, para a balbúrdia reinante no Planalto. Desta vez, o sentimento nasceu nas ruas, sem interferência dos partidos, e as vozes falaram, gritaram, estrondaram novamente e se fizeram ouvir. A grita geral sacudiu as estruturas.

Os governantes acusaram o golpe e voltaram atrás nos aumentos das tarifas de transportes públicos. A presidente Dilma Rousseff decidiu atender aos apelos, prometendo maior investimento na educação dos brasileiros e pactos para o avanço do país. O Senado prometeu votar em 15 dias questões que se arrastam há anos. Nós, cooperativistas, sabemos o quanto a união faz a força e como pessoas unidas por um mesmo ideal podem modificar uma nação. Foi assim em Rochdale, em 1844.

Pode ser assim no Brasil em 2013. Os protestos legítimos, cívicos, civilizados são mais que necessários. Só não há espaço para os vândalos, baderneiros e bandidos que se aproveitam da situação para macular a grandeza de intenções dos manifestantes. Mas sempre é bom lembrar que a Revolução Francesa começou por causa do aumento do pão…

Boa leitura e saudações cooperativistas!

Leia edição completa nº 17 da Rio Cooperativo aqui 

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