Aqueles anos 1844

usinaEscrever sobre a história não é como se olhássemos por um retrovisor, onde a imagem se esvai no horizonte. Ao revisitarmos o passado histórico estamos buscando munições para o presente. Para nós, do mundo do cooperativismo, é de fundamental importância voltarmos “àqueles anos 1844” porque os probos de Rochdale detectaram, enfrentaram e superaram os mesmos problemas que são enfrentados pelos cooperativistas de hoje, incorporando a altivez no cooperativismo, o que nos enche de orgulho.

A literatura do cooperativismo, ao reportar ao início do movimento, normalmente faz uma apresentação carregada de ingenuidade e inocência. Nela, os 28 tecelões que fundaram o movimento cooperativista estão cercados de fantasia e tudo ocorre como um espasmo de criação: aqueles homens reuniram-se e, sem aparente ligação com as condições socioeconômicas daquela conjuntura, criaram as bases para um dos maiores movimentos da sociedade.

Na verdade, a história é outra porque a situação na qual aqueles homens se encontravam era desoladora! Novas técnicas agrícolas fizeram no segmento algodoeiro a primeira indústria, enquanto na cidade os tecelões foram os primeiros operários de fábrica. A Inglaterra da primeira metade do século XIX era um excelente cenário para detalhar as grandes transformações que o mundo passava, com o advento do capitalismo. Ou seja, em 1851 a densidade populacional urbana ultrapassava a rural; o homem, antes acomodado ao contato com a natureza, passou a fazer parte de uma cidade, com todas as suas deficiências no tocante à qualidade de vida; as jornadas diárias de trabalho eram superiores a 16 horas,
fazendo com que o homem vivesse a maior parte do seu tempo no interior das fábricas; a metade dos trabalhadores era composta por mulheres e crianças.

Dado o pouco desenvolvimento dos meios de transporte e de comunicação, o mundo parecia muito pequeno: nove entre cada dez habitantes dos departamentos franceses moravam no próprio local em que nasceram.  Para ilustrarmos a precariedade dos meios de comunicação, registramos que a notícia da queda da Bastilha na França, por exemplo, demorou 13 dias para chegar a Madrid, cuja distância é de 1.029 km. Embora não houvesse a clássica escravidão, era comum ocorrer inclusão de servos na venda de terras. Os trabalhadores eram tratados de forma mercantil e descartável.
Nos idos de 1840, a Inglaterra passava por uma grande depressão econômica. Com o surgimento das máquinas, a margem de lucro reduziu drasticamente, tendo como consequência o achatamento radical dos salários dos tecelões. Estes que em 1795 recebiam 33 shillings, passaram a receber 14 shillings em 1815 e, em 1834, apenas recebiam 4 shillings e 1 ½ pence. Ao descrever o poder aquisitivo do tecelão daquela época, o historiador Eric Hobsbawn noticia que este agravamento levou 500 mil tecelões manuais a morrerem de fome.

A ração alimentar reservada aos operários era muito limitada. Em Liverpool, no começo dos anos 40 daquele século, o consumo de pão e carne reduziu em 75% em comparação com os anos 20. Um dos resultados desta crise foi um consumo ínfimo de 237 gramas, por semana, de carne pelos trabalhadores. A educação na Inglaterra “naqueles anos de 1844” era tão precária que as famílias mais aristocráticas – desejosas de patrocinar uma educação melhor para os seus filhos – lançavam mão de tutores e de universidades na Escócia, totalmente fora da realidade do operariado da época. Esta é a razão pela qual um dos princípios do cooperativismo é o fomento à educação!

O conhecimento deste cenário é fundamental para compreender as condições que provocaram o surgimento do cooperativismo como uma possível alternativa para aqueles operários sobreviverem naquele mundo adverso e sem perspectivas. A maioria dos “probos pioneiros” foi composta por pessoas rigorosamente comprometidas em desenhar um futuro mais justo e menos aterrador para os operários e para a sociedade.

Os princípios do cooperativismo mostram que o movimento procurava se afastar de todas as variáveis que provocavam sofrimento, refutando fórmulas capitalistas não favoráveis à imensa maioria dos trabalhadores. É importante frisar que a superação daquelas dificuldades enfrentadas pelos “probos” nunca sugeriu um cooperativismo de negócios, distante dos problemas do dia-a-dia dos operários. O cooperativismo que os pioneiros desejavam e sugeriram para o futuro estava umbilicalmente comprometido com um mundo mais justo e humano. E foram bem-sucedidos!

Esta releitura permite compreender os problemas de nossa contemporaneidade. O “cooperativismo contemporâneo de resultados” tende a considerar que os princípios que regem o movimento são apenas um talismã emoldurado, pendurado em uma parede, a ser contemplado sem, contudo, haver uma efetiva aplicação do seu conteúdo nas ações cooperativistas. Ocorre que, historicamente, o efetivo cumprimento de todos os princípios do cooperativismo foi o que permitiu o sucesso e a perenidade do movimento cooperativista!

Atualmente, vem sendo sugerido e difundido – pela corrente de cooperativismo de resultado – que faltam modelos perfeitos de gestão para o sucesso do cooperativismo de hoje. No entanto, o que se mostra mais deficitário em nosso cooperativismo é o espírito de cumplicidade com o coletivo: a solidariedade e o respeito ao outro!

As cooperativas não são “empresas”, uma vez que não objetivam aumentar o poder econômico das pessoas, nem são sustentadas pelo espírito da acumulação de capital, próprio do Capital. Ao revés, as cooperativas são – para seus cooperados – apenas uma saída para o enfrentamento de um mercado que lhes é adverso!

Por esta razão, torna-se imprescindível a realização de ações que levem à solidariedade, ao respeito ao outro, à preocupação com sua comunidade e à preservação do meio ambiente. E por que não ousar buscar um modelo mais adequado de se viver? Por que não oferecer o cooperativismo como alternativa a uma sociedade cada dia mais individualista e egoísta? Os princípios do cooperativismo foram dogmas para aqueles fundadores e sua fiel aplicação foi condição para a superação das enormes adversidades a eles impostas por aquela conjuntura. Lições que ficam para nós no enfrentamento dos grandes problemas da atualidade.

Devemos ter em conta que, diante do fracasso de um modelo neoliberal, que deixou de olhar o homem em sua integralidade, é razoável acreditar que as formas de associativismo sejam a esperança para um mundo melhor. O cooperativismo é uma das formas de associativismo! Assim, temos a responsabilidade de aperfeiçoar nosso cooperativismo a fim de desenvolver um novo homem para o futuro… e este novo homem deve ser eivado por éticas que elevem a humanidade e o planeta.

Por: Adelson Novaes. Especialista em cooperativismo, formado em Psicologia pela UERJ e pós-graduado pela FGV em Psicopedagogia. Ex-diretor executivo do DIEESE-RJ, ex-secretário do Sindicato dos Portuários do RJ, foi subsecretário de Educação de Nova Iguaçu/RJ.

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*


%d blogueiros gostam disto: